Mais um nóia no navio negreiro. Mais uma criança preta perdida entre o chicote e o açoite. Herança da criança que foi arrancada de sua casa, filhos do deserto, herança da criança que teve sua vida podada, filha da escravidão. Herança da criança que não venceu a meritocracia social, simples e puramente porque não há como vencer. A cela tem uma cor, a cor que os poderosos querem tirar das ruas. A cor que não está nas universidades, a cor que não pode estar onde as outras cores estão. Não porque são bons e querem resgatar as almas do pecado, mas porque não querem o joio junto do trigo. Não querem pobres, em sua maioria negros, livres nas ruas. E já que não há senzalas para prender essa raça, algemam em prisões. Prendem a corja social, a prova viva de que o liberalismo não funciona, escondem a prova na prisão mais feia e escura que existir, e a esquece lá. Ignorando milhares de vidas, e ainda lucrando com isso. Quanto custa um preso? 500 reais? Falam que custa 9 mil, mas só quem já comeu comida de cadeia sabe que aquilo não vale nem cinquenta centavos. Reeducar? Oras, não venha com comunismos. Nunca quiseram de fato inserir essas pessoas na sociedade, pra quê? Quem será a mão de obra se todos foram instruídos? Dizem defender o direito da propriedade, mas não, o que eles querem de fato é defender a sua propriedade, que ta sendo ameaçada pelos nóinhas esquecidos na favela.
Pouco se importam se tem 90 pessoas dentro de um quarto minúsculo, é bom mesmo que todos adoeçam e morram de uma só vez. Dizem buscar o fim da bandidagem, mas na verdade sabemos que esses que hoje votaram por crianças na prisão, são mais bandidos e mais perigosos do que essas crianças que amanhã comerão bolinhos da vovó mafalda, porque não é o nóia que sustenta o tráfico, quem sustenta o crime, quem banca a violência é esse sistema capitalista e nojento em que vivemos, É ele que impõe o consumo, a venda, o lucro exagerado. Inclusive o lucro do tráfico.
Ninguém paga pela alma do negro arrastado e morto na favela, mas o negro paga todos os dias o preço de ser a carne mais barata, a mais explorada e a mais violentada. Mas ignoramos as injustiças sociais e varremos o fruto do liberalismo pra debaixo do tapete, alias, pra debaixo do tapete não, pra dentro do navio negreiro das penitenciárias e esquecemos por lá mais um nóia na celinha.