Todas as quintas e terças eu tenho aulas de inglês a uma distancia de 10 quarteirões da minha casa, no caminho tem um ponto de táxi, uma oficina, uma vidraçaria, cinco bares, um estacionamento, um galpão de estoque, uma ótica e uma loja de sapatos, em todos esses estabelecimentos há homens trabalhando em sua grande maioria, no horário da minha aula, por volta das três até as quatro e meia, acredito que o trabalho nesses estabelecimentos dá uma enfraquecida fazendo com que muitos dos trabalhadores fiquem nas calçadas olhando o movimento da rua. Durante os mais de mil passos que eu dou da minha casa até a escola de inglês, eu ouço todas as quintas e terças pelo menos 6 cantadas, dos tipos mais variados, sem falar nos assovios e aqueles olhares que parecem saltar do rosto.
Eu nunca, em nenhuma das vezes que fui abordada por um homem na rua, me senti bonita ou desejada, isso nunca inflamou meu ego, pelo contrário, isso machucava a minha autoestima, sentia-me envergonhada por ser mulher, por estar na rua, por ser tão vulnerável, e por mais que a gente repita todos os dias que a roupa não influencia, você acaba se auto policiando pra não usar aquele vestido de alça, ou aquele short mais curto, porque simplesmente sabe que vai ser um inferno de olhos em cima de você. E não é só com você, se passar uma fila de mulheres na sua frente o tratamento vai ser exatamente o mesmo, na maioria das vezes eles não olham nem no seu rosto, nada no mundo parece ser tão objetificante e incômodo.
Por isso hoje, numa quinta feira, eu decidi vir aqui escrever essa carta aberta às mulheres que assim como eu, nas segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos se sentem um verdadeiro pedaço de carne ao andar pela rua. Eu queria dizer que partilhamos desse sentimento, e queria dizer também que você não se sente um lixo sozinha. O que acontece às vezes é que eu tenho uma vergonha tão grande de certas situações que desejaria estar no oriente médio vestindo uma burca, mesmo sabendo que ainda assim o assédio seria o mesmo, porque não é pelo nosso decote, não é pelo nosso short, é por sermos mulheres, é por eles serem homens. É pela necessidade de reafirmarem todos os dias os papeis de gênero da sociedade! É pra que você também se sinta suja e vulnerável, reprimida dentro do seu corpo, que deveria ser o seu próprio templo e pensando duas vezes antes de escolher suas roupas, antes de sair na rua. É por isso que somos assediadas, pro machismo continuar se nutrindo da nossa culpa e continuar fazendo vitimas silenciosas, caladas.
Não tenho nenhum intuito de ensinar os homens como se deve paquerar uma
mulher na rua, principalmente porque o respeito deve ser levado em
consideração quando você tenta iniciar algum tipo de relacionamento, e
eu particularmente duvido que algum relacionamento se inicie de um
"gostosa" gritado em público. O curioso é que quando estamos acompanhadas de algum parceiro, amigo ou parente, o assédio diminui, eu quase não ouço ou percebo nada, e ai me dou conta que de fato não sou nem minimamente respeitada. Que o respeito é para o meu parceiro, ai eu percebo o quanto sou menos do que realmente me sinto ser, e a essa altura eu já não estou me sentindo grande coisa. Mas olha, pedacinhos de carnes, o que eu queria dizer pra você é que se a gente se unir nada disso vai ser grande! Nenhum olhar, nenhuma palavra suja direcionada a nós vai poder calar a nossa busca por liberdade. Nada disso vai ser maior do que o nosso desejo de sermos nossas! E eu espero muito que a gente consiga viver em um lugar onde o nosso corpo seja de fato nosso e que o ato de simplesmente andar pela rua não pareça tão humilhante.