segunda-feira, 11 de agosto de 2014

E uzomi?

     Homens, sejam todos muito bem vindos ao universo feminista, mas estejam sempre atentos onde pisam por um simples motivo: esse é o nosso espaço, essa é a nossa luta!
     Tenho visto muitas discussões sobre este assunto pelas internês da vida, sobre o espaço e o papel dos homens na luta feminista, a princípio o que eu digo é que é sim um debate saudável, até por ser fundamental a compreensão masculina dos assuntos feministas. Isso não significa que eu esteja tentando disputar homens brancos cis maquinas de opressão em massa pra que virem mais homens brancos cis com discurso político lindo e nenhuma prática, digo isso porque me lembro de uma vez ter questionado a posição do Felipe Neto em seus comentários e uma amiga ter comentado que não se interessa em disputar homens brancos, pois eles seriam mais homens brancos falando de opressões que não sofrem, pois bem, concordo que eles não sofram as opressões referidas, entretanto, não se junte aos que pensam "mais um falando do que não sofre", junte-se aos que pensam "mais um tentando desconstruir seu pensamento opressor". Considere válida toda a espécie de ajuda.
     Quanto a "apropriação" masculina das nossas lutas, não são as mulheres sozinhas que mudarão a sociedade machista, apesar de essa ser a nossa causa, nós não temos o poder de combater o machismo sozinhas, por um simples motivo: a política é a consequência das ações humanas em sociedade, se estamos fazendo políticas pró feministas temos que abrir essas ações para TODA a sociedade, e isso inclui o sexo masculino "opressor". Só existe duas maneiras de se acabar com o machismo, uma é matando todos os homens do universo, a outra é dialogando com a sociedade por completo, apresentando as causas de liberdade e explicando porque devemos respeitar as diferenças e valorizar todos os seres humanos independente da sua identidade de gênero, orientação sexual ou cor. Porque abrir esse debate torna mais pessoas capacitadas para discursar sobre isso nos mais variados ambientes, e é essa disseminação que vai formar as novas gerações e que vai caracterizar os pensamentos das novas eras.
     É normal que com o advento do feminismo muitas pessoas se identifiquem com a luta, porque também valorizarem a liberdade, e queiram participar de suas conquistas, e é justamente por isso que vemos tantos homens apoiando nas ruas as causas feministas. Mulheres, atentem-se: isso é saudável! Não tratem "uzomi" como seres malvados portadores nato de caráter opressor porque não é bem assim que funciona. Não estamos lutando contra os homens, estamos lutando contra o machismo, lutando contra essa sociedade patriarcal que se beneficia das opressões pra continuar gerando muito lucro pra poucos. Então não é com os homens que vamos brigar, cabe a nós inseri-los nesse universo feminista, ensiná-los como devem se portar diante de uma situação que pode ser opressora, aposto que muitas de vocês já deram "aquele toque" pra um amigo que estava sendo machista sem perceber, e acreditem, nem sempre eles fazem por maldade ou pra se beneficiar do oprimido, na maioria das vezes a opressão acontece com uma naturalidade situacional que às vezes o homem nem se quer percebe o que está fazendo, veja bem, eu não estou dizendo que por isso a opressão deixa de existir, ou que a vitima é menos vitima por isso, ou que a culpa deixa de ser do opressor, o que eu estou dizendo é que o sistema machista é naturalizado todos os dias, dai o porquê da importância de se dar "aquele toque" pro seu amigo que está agindo dessa forma, é claro que se ele continuar se comportando assim ele não terá espaço na luta feminista, mas se ele começar a mudar seus atos e incorporar o pensamento crítico antes de realizar pequenas coisas, ele vai começar a perceber o quão pode ser opressor nas suas ações e por consequência começar a se policiar com isso.
     Não será tarefa fácil mudar a mentalidade da sociedade, talvez seja necessária uma revolução pra que isso aconteça, ou talvez não, vamos continuar agindo como se cada atitude diária fosse responsável pelas futuras gerações, porque de fato é ainda que a longo prazo, nossos filhos serão o reflexo de tudo que vivemos e aprendemos, e também irão desenvolver suas próprias causas, e é por isso que devemos incluir em nossos pensamentos. Sabemos que não são atitudes individuais que mudarão o curso da história, sabemos que é necessário muito mais do que boa intenção pra se somar ao movimento feminista, mas a ajuda deve sim ser considerada, a apropriação não, os homens devem aprender a ceder suas posições de privilégios e tratar isso como uma coisa não merecida a eles, mudando sua visão de que as mulheres são seres tratados como inferiores que não merecem esse tratamento e que precisam superar isso. Nós precisamos superar? Sim, precisamos! Mas o papel masculino não é ficar parado assistindo a gente superar a inferiorização a nós imposta, o papel masculino é ceder seus espaços de privilégio, e isso é mais importante do que qualquer manifestação corporal em uma passeata (não que os homens não possam ir as passeatas e apoiarem as causas), mas se atentem as pequenas ações e já estarão contribuindo para a causa feminista. Que não é sua, mas que nem por isso deixa de ser justa e necessária a todos.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Pedaço de Carne"

     Todas as quintas e terças eu tenho aulas de inglês a uma distancia de 10 quarteirões da minha casa, no caminho tem um ponto de táxi, uma oficina, uma vidraçaria, cinco bares, um estacionamento, um galpão de estoque, uma ótica e uma loja de sapatos, em todos esses estabelecimentos há homens trabalhando em sua grande maioria, no horário da minha aula, por volta das três até as quatro e meia, acredito que o trabalho nesses estabelecimentos dá uma enfraquecida fazendo com que muitos dos trabalhadores fiquem nas calçadas olhando o movimento da rua. Durante os mais de mil passos que eu dou da minha casa até a escola de inglês, eu ouço todas as quintas e terças pelo menos 6 cantadas, dos tipos mais variados, sem falar nos assovios e aqueles olhares que parecem saltar do rosto.
     Eu nunca, em nenhuma das vezes que fui abordada por um homem na rua, me senti bonita ou desejada, isso nunca inflamou meu ego, pelo contrário, isso machucava a minha autoestima, sentia-me envergonhada por ser mulher, por estar na rua, por ser tão vulnerável, e por mais que a gente repita todos os dias que a roupa não influencia, você acaba se auto policiando pra não usar aquele vestido de alça, ou aquele short mais curto, porque simplesmente sabe que vai ser um inferno de olhos em cima de você. E não é só com você, se passar uma fila de mulheres na sua frente o tratamento vai ser exatamente o mesmo, na maioria das vezes eles não olham nem no seu rosto, nada no mundo parece ser tão objetificante e incômodo.
     Por isso hoje, numa quinta feira, eu decidi vir aqui escrever essa carta aberta às mulheres que assim como eu, nas segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos se sentem um verdadeiro pedaço de carne ao andar pela rua. Eu queria dizer que partilhamos desse sentimento, e queria dizer também que você não se sente um lixo sozinha. O que acontece às vezes é que eu tenho uma vergonha tão grande de certas situações que desejaria estar no oriente médio vestindo uma burca, mesmo sabendo que ainda assim o assédio seria o mesmo, porque não é pelo nosso decote, não é pelo nosso short, é por sermos mulheres, é por eles serem homens. É pela necessidade de reafirmarem todos os dias os papeis de gênero da sociedade! É pra que você também se sinta suja e vulnerável, reprimida dentro do seu corpo, que deveria ser o seu próprio templo e pensando duas vezes antes de escolher suas roupas, antes de sair na rua. É por isso que somos assediadas, pro machismo continuar se nutrindo da nossa culpa e continuar fazendo vitimas silenciosas, caladas.
     Não tenho nenhum intuito de ensinar os homens como se deve paquerar uma mulher na rua, principalmente porque o respeito deve ser levado em consideração quando você tenta iniciar algum tipo de relacionamento, e eu particularmente duvido que algum relacionamento se inicie de um "gostosa" gritado em público. O curioso é que quando estamos acompanhadas de algum parceiro, amigo ou parente, o assédio diminui, eu quase não ouço ou percebo nada, e ai me dou conta que de fato não sou nem minimamente respeitada. Que o respeito é para o meu parceiro, ai eu percebo o quanto sou menos do que realmente me sinto ser, e a essa altura eu já não estou me sentindo grande coisa. Mas olha, pedacinhos de carnes, o que eu queria dizer pra você é que se a gente se unir nada disso vai ser grande! Nenhum olhar, nenhuma palavra suja direcionada a nós vai poder calar a nossa busca por liberdade. Nada disso vai ser maior do que o nosso desejo de sermos nossas! E eu espero muito que a gente consiga viver em um lugar onde o nosso corpo seja de fato nosso e que o ato de simplesmente andar pela rua não pareça tão humilhante.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Direito ao Aborto

      Não foi fácil escolher o tema da minha primeira postagem, pensei em começar com alguma coisa mais tranquila ou que não rendesse tanta polêmica, mas decidi então por um assunto que talvez seja um dos que mais causam "auê". O direito ao aborto, acho que todo mundo já deve ter lido em algum lugar que é direito da mulher decidir sobre o que fazer com o corpo dela, e por mais que isso pareça óbvio, ainda temos que reafirmar todas as vezes que entramos em assuntos como esse.
      Mais do que dizer que o corpo é um bem particular e cujo direito é inviolável, gostaria de desconstruir alguns julgamentos que temos e que tapam nossos olhos. Há alguns anos me mostraram um vídeo (quase nada apelativo) contando sobre a vida de um feto, isso mesmo, desde sua fecundação até o dia em que foi abortado, no vídeo o feto tinha uma espécie de "raciocínio" que é praticamente impossível que exista em um feto, só que na época eu não tinha a formação feminista que tenho hoje, e me sensibilizei completamente com o apelo, me lembro de que no final a suposta "consciência" do feto perguntava o porquê de sua mãe ter feito aquilo e dizia: "eu poderia ter te dado tantas alegrias." Essa palavra "poderia" ficou ecoando na minha cabeça durante um bom tempo. Nunca fiz um aborto, nunca passei por nada nem se quer parecido, não me sinto no direito de falar como se sente uma mulher que tenha passado por isso, mas de todas as dores que ela tenha, acredito que uma das maiores é justamente causada por essa palavra "poderia". Ela "poderia" ter se protegido, ou "poderia" não ter sido violentada, ou "poderia" ter escolhido continuar com a gravidez, mas não foi nada disso que aconteceu, e esse pensamento só causa mais dor e trauma.
      Ninguém jamais defendeu que o aborto seja uma coisa boa, a mulher sofre fisicamente e psicologicamente, tem a sua vida completamente amargada, se expõe ao risco de morte, é julgada por todos como um monstro sem coração, mas mesmo assim sustenta a sua decisão por simplesmente ser um decisão dela, única e exclusivamente dela! E só conseguimos entender isso quando fechamos os olhos pra cultura da sociedade e começamos de fato a humanizar as pessoas, a dar nomes a grande massa de mulheres aborteiras, às vivas e às mortas. Damos nomes as 68 mil mulheres mortas por ano, damos sentimentos aos seus nomes e conseguimos de fato entender que não é uma decisão fácil, e justamente por isso esse direito deve ser garantido, e além de garantir o direito também seria necessário fornecer auxilio psicológico às mulheres que optam por interromper uma gravidez. Entendemos que não é uma questão de "poderia". Entendemos que direito à vida, não é só pregar que o aborto é um assassinato ou que é uma coisa horrível, direito à vida é proteger as mulheres que precisam de apoio nesse momento tão delicado.
      68 mil mulheres perdem o seu direito à vida em abortos clandestinos todos os anos. Mulheres que optaram por isso, ou talvez não tiveram outra escolha. O curioso é que os mesmos que pregam o "direito à vida" também esquecem que depois que nasce a criança precisa de cuidado, de condições dignas, de direitos garantidos, de amor e de todo um aparato social para crescer de maneira saudável e sem traumas. O que na grande maioria das vezes não acontece com os filhos de mulheres que seguem adiante uma gravidez indesejada. Um exemplo disso é que a maior causa de depressão pós-parto se dá porque a mulher não se sente preparada, ou não sente aquele choque de amor incondicional que estamos acostumados a acreditar que exista. Pois é, não, ele não existe em todas as mulheres. Somos diferentes umas das outras, até mesmo na forma de amar. Não é um fascínio natural da mulher ser mãe, essa ideia foi construída numa época onde 'mais pessoas' significava 'mais soldados numa guerra'. A sociedade manipula até os nossos sentimentos, você vê que coisa? E aí surge o feminismo dizendo que não, não precisamos ser mães para sermos "mulheres completas" ou "efetivamente felizes", ser mãe é uma escolha, e todo aquele mar de dúvidas desaparece, talvez se as mulheres (ou todxs nós) seguissem suas próprias escolhas, ignorando o querer socialmente construído, teríamos menos stress e depressão no mundo.
      O aborto não é uma coisa legal, mas é uma escolha, e como toda escolha pessoal deve ser respeitada e garantida. Legalizar o aborto não vai aumentar o número de mulheres aborteiras, quem faz essa escolha vai seguir com ela sendo ilegal ou não, legalizar só garante que isso seja feito com segurança o que por sua vez diminui o número de mortes. Ser feminista não é ser a favor do aborto, é ser a favor do direito de escolha de cada um sobre seu próprio corpo, seja a escolha qual for.
                                                                              Por olhos feministas

terça-feira, 27 de maio de 2014

Tudo muda quando o seu olhar muda!

Bom, há algum tempo eu venho pensando em escrever sobre as coisas e sobre a minha nova concepção das coisas. A primeira lição de todas que eu quero deixar cravada pra posteridade aqui é que: O FEMINISMO É LIBERTADOR! É maravilhoso se desprender das amarras que te travam e te impedem de enxergar o mundo com os olhos completamente diferentes dos que você possuía antes de conhecer o feminismo. Digo isso porque há alguns bons três anos, venho estudando sobre essa ideologia que na realidade não é tão surreal quanto parece, por mais enraizado que o machismo esteja, na teoria a maioria das pessoas realmente acreditam na ideia radical de que mulheres são gente! (hahahaha) Partindo então desse pressuposto, eu convido todos vocês a compartilharem das minhas antigas e novas descobertas como feminista, com a singularidade de um par de olhos que são só meus, mas que pretendem mudar pra melhor a vida de um bocado de pessoas. Gabriella